05 outubro 2010

Desabafo #1

Uma das coisas que mais me admirou no ser humano é a sua falta de caráter. A minha capacidade de confiar neles diminui ao passo em que eu os conheço. Isso é ótimo. Quando eu consigo, da forma mais patética e ridícula possível, confiar nessa espécie animal vagabunda que nós somos, alguém, dessa mesma espécie e exemplo perfeito de lixo humano, aparece na minha vida para mostrar que eu não estava errado e que não somos dignos de existir.
"Eu tenho plena convicção de que você não vai ler esse e-mail. Mais ainda, eu tenho certeza que você não responderá. Não é uso de psicologia reversa, é simplesmente a realidade. Não espero uma resposta."
Escrevo apenas para poder tirar todo o resto de humanidade com cheiro de chorume que você deixou. Se o meu coração chegou a bater acelerado por você, peço desculpas agora, porque você merece coisa melhor: uma simples, alienada, forte e burra pessoa ao seu lado. Ou melhor: merece ficar com várias pessoas para o resto da vida. Merece alguém que fique com você e que tenham uma vida normal - exatamente nos seus parâmetros - e que morram juntos, nem antes, nem depois. O "não morra antes de mim" é babaquice demais para você. Seja, da forma mais simples ou espetacular, no seu ponto de vista, feliz.
Com todas as possíveis tristezas e felicidades dividindo o mesmo espaço, eu me despeço. Sei que esse texto é pouco para limpar a mancha que você deixou, mas é só dessa forma que eu vou conseguir começar. E por favor, se passar pela sua cabeça que eu quero uma resposta, responda da forma mais grossa e pessoal - assim me ajuda a limpar tudo.

Este e-mail foi enviado para alguém que eu nem sei mais quem é. Não sei se eu conheci realmente, não sei nem se cheguei a conhecê-lo. E nesse momento, às 03h59min do dia 5 de outubro, eu aceitei pela primeira vez que ele saiu da minha vida. Eu choro, eu soluço quase mudo e fumo desesperadamente. Mas tudo isso abafa e simula uma realidade que quase não é minha.

12 setembro 2010

Veneno

Se tirar um pedaço de mim era o que você queria, você conseguiu.

Se roubar minha esperança em alguém era o que você mais sonhava, que queria fazer disso uma Odisséia: você é meu Ulisses.

E se quando você disse que me amava era pra poder me dar conforto e me afagar da forma mais sutil possível, agora estou deitado em uma cama de ouriços do mar, venenosos, letais, infernais.

Se me tornei cego por um momento, queria na verdade ver até onde ia você e sua paixão.

E se a forma covarde como você age é o máximo que eu consigo ter, eu espero ser o único a sentir o gosto amargo e quente da pólvora.

Espero ser o único a ver o próprio sangue derramado no piso do corredor de casa, vermelho-paixão e quente que cause combustão.

16 agosto 2010

A matéria bruta da alma

Sempre me confundo com a data em que nasci. Sou incapaz de me recordar exatamente a primeira vez que respirei. Talvez tenha ocorrido diversas vezes e eu parei de contar na terceira – ou nunca contara. Talvez a data de nascimento exata seja aquela que consta nos autos dos documentos de onde eu vivo. Mas eu mesmo poderia adulterar incoerentemente e ilegalmente de alguma forma.

Certo é que eu me sinto nascendo quando respiro de uma forma diferente. Um suspiro seguido de um arfar tão intenso que me lembra o primeiro suspiro de alguém nascido. Aqueles que não nasceram, mesmo agora vivos, não sabem do que estou falando e talvez nunca saibam. Mas não me importo tanto assim com eles.

O frenesi das primeiras respirações é intenso. Os brônquios pulmonares gritam e gritam desesperadamente. Também não me importo com eles. Uma hora ou outra, eu mesmo não vou saber o que é esse respirar. Não vou saber ‘como’ respirar. Também não me importo.

Estar vivo pela primeira vez não me satisfez.

Precisei morrer diversas vezes até saber como não viver mais. Até agora não aprendi como não sobreviver.

Há aqueles que sabem do que eu estou falando. Aqueles que não sabem, aconselho a parar de ler agora. Na leia as próximas linhas, frases, parágrafos. Não leia mais nada na sua vida. Tornar-se ignorante novamente, com apenas uma vida vivida, seria o Éden pra mim. Mas é tarde pra que eu consiga sair desse inferno que entrei. Fui jogado. Enterrado vivo. Jogaram cinzas do holocausto sob e sobre meu túmulo. Agora vivo de uma forma ofuscada, fedida e encantadoramente assustadora.

Também não me importo.

Continuo na inércia de quem só vê o mundo de maneira despreparada. Não sei quantas vezes mais vou precisar viver e morrer, morrer mais vezes. Morrer de formas humanamente impossíveis. Se você já morreu de formas inumanas, não me ensine. Quero aprender e apreender todas elas em uma só vida. Uma vida viva. O medo de me tornar humana me transforma em coisa. Tão exótica e comum aos olhos de todos, que eu mesmo me enojo. Mas não tenho escolhas. Preciso ficar nesse inferno até aprender a morrer.

Dias se passam e a inércia e merda do mundo continua vivendo sua patética vida. Ninguém para. Quando para, é pra sempre. É preciso saber ressuscitar. Dar o primeiro suspiro novamente. Expirar cada vez mais forte. Assustar sua incerteza. Mas continuar incerto, até acertar. Não acerte. Torne incerto para que todos outros se percam e tentem se achar.

Achar-me consome mais tempo do que imaginei um dia. Há anos tento, procuro e cavo sempre pra cima. Mas faço o caminho inverso. Cavo mais fundo ainda meu túmulo, sonhando estar cavando na direção certa. Sou guiado pela fé de que um dia encontrarei o ápice da humanidade. O ponto ‘g’ decisivo, incisivo. Rogo pelos que rogam e faço uma prece que parem. Não é possível tornar-se humano. Mas desistir de tentar me consumiria algo mais valioso: minha morte.

Capitulo Final

Matar é algo saboroso. Aos olhos de quem vê, de quem mata e de quem morre. A mensagem rápida e segura da morte.

Quem vê o assassino não sabe o gosto que ele sente na boca. Não sabe o gosto que ele sente ao dar cabo à vida de outra pessoa. O sabor de tirar a humanidade de alguém.

O assassino tira alguém da humanidade. Controla e estipula a vida. Põe ela em forma do que quiser, tal como a massa de modelar. A matéria bruta da alma se torna tão maleável como o aço. Quebrar mesas de mármore se torna fácil depois que matamos alguém. Entrar na água, líquida e densa até certo ponto torna-se impossível. A água é impenetrável – para quem mata e para quem morre. Quem assiste, consegue penetrá-la de forma sutil

09 agosto 2010

Receita caseira

Ininterruptamente o problema da saudade persiste.
Para resolver o problema utilize a seguinte receita:
1 pitada de raiva
2 xícaras de chá de música alegre
3 xícaras de chá de música triste (pode-se usar também música down de origem estrangeira)
7 colheres generosas de amor
Lembranças de bons momentos juntos à gosto.

Reserve em um recipiente maus momentos, ciúmes e a saudade que restar.

20 julho 2010

Liberdade é ter onde voar e onde cantar e onde pousar

Há tempos não me sentia assim. Talvez senti em duas ou três vidas atrás.
Agora sinto um gosto amargo. Mastigo o doce do céu e do açúcar do café pra tentar minimizar os golpes cada vez mais intensos e amargos.
Sangro por dentro, uma hemorragia psicológica tão intensa que fico sem forças pra levantar. Sento e só me vem lembranças.
Então eu deito e antes de dar um suspiro, mergulho numa correnteza de pensamentos tão forte que me arrasta pra não sei onde, me vira e revira de cabeça pra baixo e perco totalmente a direção. Me afogo em histórias que não aconteceram por bem ou por mal. Melhor: me afogo em histórias que não aconteceram porque ainda não é tempo, não há e não houve tempo.
Então eu acordo, me sento e acontece tudo novamente: sento-me, vem pensamentos, deito-me, revira-me e afogo-me.

Digamos que acordado perdi o chão. Perdi meu chão.
O que me consola é saber que pássaros não tocam no chão ao voar e cantam quando param em uma árvore aconchegante, até poder novamente tocar no chão.

10 julho 2010

Autor Desconhecido

Só se sabe o que é amor quando dele já sofreu. Não há cura, não há mistério: seja espancado por ele e se entregue.

27 junho 2010

Novo

Tudo cansa ver, pouco nos resta pra sentir.
A mudança sempre vem quando menos nos esperamos. Nunca estamos preparados, com malas prontas. Nosso coração ainda tem as feridas frescas e as cicatrizes não pensam em agir tão cedo.
As poucas lembranças boas são quase invisíveis e fracas. As más? Brutas.
Tentativas incessantes, insistentes e frustradas de esquecer algo que está na sua história.
O rumo que as coisas tomam fogem daquele que foi estabelecido. A gente se perde por um momento, mas se o novo rumo for o certo, te coloca no eixo e tu segue adiante.